Office no Linux com Wine e Lutris

Michael9 min de leitura

E aí, galera. Aqui é o Bullet.

Hoje o papo é sobre uma dor clássica de quem vive no Linux: rodar o Microsoft Office de verdade. Word, Excel, PowerPoint, aqueles mesmo.

Não estou falando de LibreOffice nem de WPS (que são ótimos, viu, e resolvem 90% dos casos). Estou falando de quando você precisa do Office original, porque a planilha do cliente tem macro, ou porque aquele .docx cheio de formatação abre torto em qualquer outra coisa.

Spoiler: dá pra fazer. Mas tem um detalhe que quase ninguém te conta e que faz a maioria dos tutoriais falharem. Vou te mostrar o caminho que funciona de verdade, porque acabei de instalar aqui na minha máquina (Linux Mint) e testei cada passo. Bora?

O pulo do gato: C2R x MSI

Presta atenção nessa parte porque é onde 90% da galera se ferra.

O instalador moderno do Office (aquele que a Microsoft entrega hoje, o Click-to-Run / C2R) NÃO funciona no Wine. Ponto. Não é limitação da sua máquina.

O C2R depende de um serviço próprio (ClickToRunSvc) e de virtualização App-V que o Wine simplesmente não implementa. Você vai baixar 3 GB, tentar instalar, e ele vai quebrar na sua cara. No WineHQ AppDB isso é classificado como "Garbage" há anos.

O que funciona é o instalador MSI (também chamado de Volume License / VL).

É aquele modelo antigo, com um setup.exe na raiz e uma pasta tipo proplus.ww do lado. Esse tipo instala liso no Wine.

Como saber qual você tem? Abre o .iso e olha:

  • Se tem OINSTALL.EXE e uma pasta Office/Data/*.CAB com uns STREAM000.DAT → é C2R, joga fora.
  • Se tem setup.exe + pasta proplus.ww (ou standard.ww) com um .msi dentro → é MSI, é esse que a gente quer.

E, de bônus: prefira sempre a versão 32-bit (W32), mesmo no seu Linux 64-bit.

O Wine roda Office 32-bit muito mais estável. A versão x64 dá bem mais dor de cabeça (crashes, componentes que não registram).

A própria Microsoft recomenda o Office 32-bit por compatibilidade.

Só vá de x64 se você mexe com planilhas gigantescas (acima de 2 GB de RAM num arquivo só) - que não é o caso de 99% das pessoas.

Vale mencionar: esse tutorial usa o Office 2016, mas o mesmo processo funciona pro 2010 e 2013, porque todos são MSI. Muda só o nome da pasta (Office14.ww no 2010, por exemplo).

Onde baixar a ISO

Você precisa da mídia MSI.

Os links oficiais da Microsoft (sim, arquivos hospedados no CDN da própria MS) estão indexados aqui:

Baixe o Office Professional Plus 2016 - 32-bit no idioma que quiser. A ISO PT-BR que usei nesse tutorial foi essa:

Guarda ela numa pasta tipo ~/Downloads/office/. A gente vai usar daqui a pouco.

Passo 1: Preparando o terreno

Primeiro, o básico. No Mint/Ubuntu/Debian:

sudo dpkg --add-architecture i386   # habilita 32-bit
sudo apt update
sudo apt install wine wine32 winbind winetricks lutris p7zip-full

O wine32 é essencial (a gente vai criar um prefixo 32-bit), o winbind mata uns erros chatos de autenticação, o winetricks instala as dependências e o p7zip-full serve pra extrair a ISO sem precisar montar com sudo.

Passo 2: Extraindo a ISO

Em vez de montar a ISO com sudo mount, extrai direto com o 7z. Mais simples e sem senha:

cd ~/Downloads/office
7z x -y -omsi SW_DVD5_Office_Professional_Plus_2016_W32_Brazilian_MLF_X20-41350.ISO

Confere se saiu certo - tem que existir o setup.exe e o .msi:

ls msi/setup.exe msi/proplus.ww/proplusww.msi

Apareceu os dois? Então é MSI de verdade. Segue o baile.

Passo 3: Criando o prefixo Wine 32-bit

O prefixo é tipo um "Windows portátil" isolado. Vamos criar um só pro Office, pra não sujar seu ~/.wine:

export WINEPREFIX="$HOME/Games/office2016"
export WINEARCH=win32
export WINEDLLOVERRIDES="mscoree,mshtml="   # evita o popup do mono/gecko
wineboot --init

O WINEDLLOVERRIDES ali desliga aquele popup irritante do Wine querendo baixar o Mono e o Gecko - o Office não precisa deles.

Passo 4: As dependências (a parte que faz funcionar)

Aqui é onde o Office ganha o que precisa pra rodar. Manda o winetricks:

winetricks -q -f win7 corefonts msxml6 riched20 gdiplus

Traduzindo o que cada um faz:

  • win7 - finge pro Office que ele tá num Windows 7 (compatibilidade máxima).
  • corefonts - as fontes da Microsoft (Arial, Times, Calibri). Sem isso a interface fica horrível.
  • msxml6 - parser de XML que o Office usa pra caramba internamente.
  • riched20 - componente de texto rico (as caixas de edição).
  • gdiplus - renderização gráfica.

Isso baixa uns arquivos e leva alguns minutos. Toma um café. ☕

Passo 5: Instalando o Office

Dá pra rodar o setup.exe na interface gráfica e ir clicando, mas eu prefiro o modo silencioso com um config.xml. Cria o arquivo:

<Configuration Product="ProPlus">
  <Display Level="None" CompletionNotice="No" SuppressModal="Yes" AcceptEula="Yes" />
  <Setting Id="SETUP_REBOOT" Value="Never" />
</Configuration>

Salva como msi/proplus.ww/config.xml e manda ver:

cd ~/Downloads/office/msi
wine setup.exe /config proplus.ww/config.xml

Agora é esperar. O instalador vai copiar ~1,4 GB pro prefixo. Se quiser acompanhar o progresso num outro terminal:

watch -n5 du -sh "$HOME/Games/office2016/drive_c/Program Files/Microsoft Office"

Quando parar de crescer e o comando voltar pro prompt, terminou. Confere se os executáveis nasceram:

find "$HOME/Games/office2016/drive_c" -iname 'excel.exe' -o -iname 'winword.exe'

Passo 6: O teste de fogo

Bora ver o Excel abrir:

cd "$HOME/Games/office2016/drive_c/Program Files/Microsoft Office/Office16"
WINEPREFIX="$HOME/Games/office2016" wine EXCEL.EXE

Se abriu a telinha verde do Excel sem crashar... parabéns, deu certo.

Passo 7: Atalhos pra não sofrer no terminal

Ninguém merece digitar aquele comando gigante toda vez. Cria um launcher:

mkdir -p ~/.local/bin
cat > ~/.local/bin/office-excel <<'EOF'
#!/usr/bin/env bash
export WINEPREFIX="$HOME/Games/office2016"
export WINEARCH=win32
export WINEDLLOVERRIDES="mscoree,mshtml="
cd "$WINEPREFIX/drive_c/Program Files/Microsoft Office/Office16"
# converte caminho Linux -> Windows (Z:\...), senao o Office abre em branco
args=()
for a in "$@"; do
  if [ -e "$a" ]; then args+=("$(winepath -w "$a" 2>/dev/null)"); else args+=("$a"); fi
done
exec wine EXCEL.EXE "${args[@]}"
EOF
chmod +x ~/.local/bin/office-excel

Faz o mesmo pro WINWORD.EXE e POWERPNT.EXE (é só trocar o nome do .exe). Agora você abre o Excel só digitando office-excel, e ainda dá pra abrir arquivos direto: office-excel planilha.xlsx.

O pega que quase ninguém avisa: se você passar o caminho Linux cru (/home/você/planilha.xlsx) direto pro Excel, ele abre uma pasta em branco e ignora o arquivo. O Office espera caminho no formato Windows (Z:\home\você\planilha.xlsx). Por isso o winepath -w ali no meio do script - ele faz essa tradução. Descobri isso na marra: abria o arquivo e vinha um "Pasta1" vazio. Sem esse detalhe, o duplo-clique num .xlsx não funciona.

Quer que apareça no menu do sistema? Cria um .desktop:

[Desktop Entry]
Type=Application
Name=Excel (Office 2016)
Exec=/home/SEU_USUARIO/.local/bin/office-excel %f
Icon=x-office-spreadsheet
Terminal=false
Categories=Office;
MimeType=application/vnd.openxmlformats-officedocument.spreadsheetml.sheet;

Salva em ~/.local/share/applications/office-excel.desktop. O %f no Exec faz o duplo-clique num .xlsx abrir direto no Excel.

Passo 8: Colocando no Lutris

Como o título prometeu Lutris, bora botar lá também. E aqui vai uma sacada esperta: em vez de configurar o runner Wine do Lutris (que ia pedir pra baixar uma versão de wine separada), eu aponto o Lutris pro launcher script que a gente já criou. Runner linux, aponta pro ~/.local/bin/office-excel, e pronto - o Lutris só executa o script, que já sabe montar todo o ambiente Wine.

No Lutris: botão +"Add locally installed game" → aba Game options:

  • Runner: Linux
  • Executable: ~/.local/bin/office-excel
  • Working directory: ~/Games/office2016

Salva, e o Excel aparece bonitão na sua biblioteca, com direito a ícone. Repete pro Word e PowerPoint.

Vale mencionar: se sua biblioteca do Lutris estiver aparecendo vazia do nada, dá uma olhada se o banco (~/.local/share/lutris/pga.db) existe. O Lutris guarda a lista de jogos ali; os .yml em ~/.config/lutris/games/ são só as configs. Sem o banco, os jogos somem da tela mesmo com as configs no lugar.

A questão da ativação

Não vou te enrolar: essa é uma mídia Volume License. O Office instala e roda numa boa, mas em algum momento ele vai chorar pedindo ativação, porque toda instalação precisa de uma licença válida.

O jeito certo é ter uma chave legítima - seja uma MAK/retail que você comprou, ou uma KMS corporativa se a sua empresa tem esse contrato. A comunidade costuma usar scripts de ativação KMS (o pessoal do massgrave mantém os mais conhecidos), mas fica o aviso honesto: ativar Office sem uma licença que te dê direito a isso é pirataria. Se é pra uso sério, compra a licença. O recado aqui é técnico; a responsabilidade legal é sua.

Enquanto não ativa, o Office roda normal no período de carência.

Conclusão

E é isso, galera. Office rodando no Linux, de verdade, sem dual boot, sem máquina virtual comendo sua RAM.

O segredo todo mora em um detalhe: usar a mídia MSI 32-bit, não o C2R. Sabendo disso, o resto é seguir a receita - prefixo, dependências, instala, cria os atalhos. Meia hora de trabalho e você tem Excel, Word e PowerPoint clicáveis no menu e no Lutris.

Ainda assim, sejamos honestos: pra 90% das tarefas do dia a dia, o LibreOffice ou o OnlyOffice nativos resolvem sua vida sem toda essa dança. Só vá de Office-no-Wine quando você precisa da fidelidade do original - macro complexa, formatação que não pode quebrar, aquela planilha do trabalho que só abre certo lá.

E aí, funcionou pra você? Travou em algum passo?

Me conta nos comentários ou me chama lá no X (@BulletOnRails) que a gente resolve.

Até a próxima.


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